quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Que ninguém nos roube a capacidade de ver e sentir o amor e a beleza que nos cerca...

“UM DIA DE CADA VEZ”

Por Lúcia Barden Nunes

Talvez eu esteja um tanto cansada... Já sentiram um cansaço interior, mas que não é desânimo? Ou talvez , uma tristeza difusa. Cansaço de um tipo que a realidade não pode disfarçar? Não desocupa o lugar... Penso que há um "Espírito da Misericórdia" que permeia tudo, senão sucumbiríamos - na escassez, na suficiência, e mesmo na fartura. Este Espírito, que acredito ser de Deus, o Criador, aponta-me o único Caminho - o da oração.

Lembro de Santa Teresa de Ávila em um de seus poemas, de memória: “Só Deus basta. Temor, cansaço, injúria, incompreensão, perdas, jamais nos dominarão(...)”. Suas palavras são tão densas que nos obrigam a um pedido de licença poética, já que nos damos conta que "compomos" seu poema com as palavras fora do lugar... Se escrevermos as sentenças fora da ordem com que fora dispostas , sempre evocarão mesmo sentido: viver é uma aventura cheia de perigos, concretos e psíquicos, mas Espírito de Deus cuida de nós como se fôssemos um pequenino pássaro, frágil e desamparado. afinal, seus pais cuidam dele até que possa voar. O Criador faz mais por suas criaturas humanas: já podem voar; já estão até cansados de tanto voarem (e caírem...). Ele repara suas "asas interiores" para a próxima estação... Até que chegue a hora do voo definitivo chegar...

Estará sempre à nossa volta, desde que permitamos que a nossa razão pressinta sua presença generosa. Para mim, a Divina Providência se mostra em várias situações, formas. Deus é poesia, é sutileza, é compreensão... Podemos vislumbrá-lo em um raio de sol inesperado que ilumina parte da cidade, ou que  adentra o parque, em um duplo arco-íris, ou então, na revoada de cinco ou seis pequenos pássaros azuis que tomam de repente galhos de uma árvore à frente de nossa sacada. Isto, de fato aconteceu: os passarinhos azuis, barulhentos, felizes, tomaram os galhos da árvore. Ficaram como que fixados em nossas retinas, tal como uma proteção de tela em nosso computador... Raros, em plena cidade, em um canto arborizado nos deram a "honra " de contemplarmos suas existências... Instantes privilegiado de um homem e uma mulher, unidos pelo amor, mas provados na dor do existir humano...

Também vi neste período difícil, um beija-flor que entendi na época, em minha mente e coração, ser como que um "mensageiro" de algo... Sua visita inusitada, já que pairava sobre o vidro da sacada que dava para nossa sala foi até perturbadora. acho que falei antes: quando alugamos o apartamento nos disseram que estava sem inquilino há mais de um ano. Ou seja, o beija-flor não viera conferir se o antigo dono colocara aquele frasquinho com água e açúcar. Só sei que sua visão ao fim da tarde parecia me avisar que seríamos libertados de um conjunto esmagador de coisas...

Por vários dias, no fim da tarde, após o por do sol, aparecia este ou outro beija-flor, que pairava no porta de vidro fechada (na metade), e instantes depois, se virava e ía embora.

Certo dia, meu marido, seu colega de universidade e eu jantávamos na nossa pequena sala de jantar. O colega estava de costas para a sacada, mas nós o vimos pela última vez. Nenhum vaso com flor; e como falei antes, nem mesmo há aqueles frascos com água açucarada para atraí-los, e além disso, o apartamento não era alugado há mais de um ano... Estranho, inusitado...

Não lembro exatamente, mas no outro dia ou no seguinte - naquela semana- em findaram as "visitas", tivemos várias definições que nos indicavam que devíamos tomar outro rumo. Descobri na internet uma saída daquela cidade. Feito o concurso, meu marido veio a lecionar em outra universidade que distava seis horas de onde morávamos.

Sofremos muitas decepções, isolamento, indiferença, tanto profissional quanto pessoal naquela cidade. O que ficou marcado além disso em nossas mentes? Saímos mais fortes em tudo, amadurecemos nossa Fé.

Naquela fase, isto é, da espera de uma "rota de fuga", em tudo percebi a presença de Deus. De minha parte, ia diariamente, no início da noite, rezar por uma hora, em honra ao Santíssimo Sacramento. Em seguida era celebrada a missa. Geralmente não ficava. Preferia no fim da tarde dos sábados. Meu marido após algum tempo passou a me acompanhar, de acordo com sua inspiração. Nada melhor poderia ter acontecido... Senti, no conjunto das coisas, que venceríamos todos os obstáculos. A Graça de Deus nos deus asas e voamos livres...

A esperança é logo ali... O canto dos pássaros, uma criança que dá os primeiros passos e, mesmo sem ter jamais me visto, faz um aceno que me acompanha e da calçada sorri. Eu, sem ninguém à minha volta no ônibus, sorrio encantada e lhe aceno. Ela continua seu gesto e eu também... Até nos perdemos de vista. Minha retina que viu esta "cena celestial", cristalizou tudo em minha memória. Agora vocês também poderão dizer que sentiram uma esperança real, viva , tal como eu, mesmo neste mundo de gentilezas artificiais... Penso comigo que tiveram vivências semelhantes às minhas. Me sinto bem por isto. Esta “gota de esperança” foi plenamente gratuita. Eu vivo para encontrá-la, seja onde for. Uma a uma. Até que o frasco de minha vida transborde... São gotas de esperança, mas podem ser também borboletas multicoloridas que pairam, dançam à nossa volta...

Ali, na quebrada da esquina, enquanto o ônibus não vem, ou na plataforma do metrô, enfim, no mais simples, no mais singelo evento encontramos uma gota de esperança, mas cheia de intensidade. Abramos nossos olhos, nossos corações, e passemos a "instruir" nossa razão para que volte a admitir, e melhor, a contemplar o bom e o belo...

Nosso coração aquece, nossa mente voa. Estamos vivos. Que ninguém nos roube a capacidade de ver e sentir o amor e a beleza que nos cerca – desde a contemplação de uma flor, do canto de um pássaro na janela do edifício, de uma borboleta que voa em plena avenida, e, com intensidade igual, que ninguém, nem me mesmo nós próprios, nos impeça de dar uma chance à vida.... Deus, quer admitamos ou não, envolve misteriosamente cada um de nós, cada semelhante que se mova pelo bem, afinal ninguém é perfeito... Há uma criança, um jovem, uma pessoa madura ou envelhecida que se aproxima... O fato é que está ali, próximo de nós, muitas vezes, está pronta para nos oferecer um sorriso, ou até falar de algo aleatório, por ser cordial. Também pode ser o caso de ter esbarrado em nós, e, na pressa, sorri como quem se desculpa... Na mais desejável hipótese, oferece um sorriso discreto porque não ganha nada com isto...

(LBN)

Escrito em 06 de agosto de 2009 (postado hoje, 29 de outubro de 2009, às 01h43min).

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